... Eles sempre tem um pouco de nós, as vezes os olhos ou o jeito de andar, o tom da pele ou uma vontade É impossível negar-lhes a própri...

Personagens...

...Eles sempre tem um pouco de nós, as vezes os olhos ou o jeito de andar, o tom da pele ou uma vontade
É impossível negar-lhes a própria genetica.
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- "É com certeza algo" - refletiu ele, deitado, ouvindo uma música tranquila - " As vezes não sei bem se esse algo sou eu, só, ou se realmente somos.
As horas, os dias e as semanas passam como segundos, os anos voam sobre nós."

Lucius não era bem o tipo de pessoa que costuma cogitar muito uma ou outra coisa, se era algo, era e ponto. Mas aquilo ali... Aquilo permanecia suspenso, ele agarrava-se a isto como um menino segura firmemente o cordão que prende um balão de hélio, numa estranha certeza de que se lhe escapasse pelos dedos jamais alcançaria de volta.

Bem, ele está certo. Não que em algum momento ele aceite isto como um fato. Prefere ver como algo enevoado, incólume perante tantas coisas que poderiam afeta-lo se fosse diferente. 

As vezes é melhor considerar que não é nada. As vezes é melhor nem pensar.
O que se pode obter se por acaso arriscar?
...
- " as coisas devem enquadrar-se serenamente e com solidez - ele remexe-se um pouco à frente do computador, irrequieto só de pensar como as coisas devem ser - eu vejo que parece estar sendo assim, as grandes questões estão resolvidas, ainda bem." 

Bernardo não gostava de alterações. Se algo faltava ou encaixava-se mal, reagia como se o mundo lhe estivesse a ser injusto, cruel deliberadamente, a culpa nunca estava em si, antes estivesse em outro, pois se fosse sua.... A dor seria imensa. Cedo aprendeu o lugar da exatidão onde não há que se titubear e portanto não existe dor. 
Tem a companhia de que precisa, e lhe basta, contanto que ela esteja bonita, como ele merece.

Como qualquer pessoa que em algum momento resolve crer que tudo está resolvido, ele está fatidicamente - e tristemente - enganado.
....
- " silêncio, posso ficar em silêncio - pensa ele sentado à uma cadeira próxima da água, a bebericar cerveja - As coisas quando não são ditas em voz alta eximem-se de crescer em dimensão."

Francisco se considera um fracasso irremediável. Tem tudo o que gostaria de ter mas há qualquer coisa que lhe falta, vive uma vida normal, dia após dia, pequenos problemas surgem e se vão, os filhos crescem. Mas há ela.  Tão parecida e tão diferente de si, o faz pensar em tudo que poderia ser e não é, e o todo que não foi. Quer falar com ela, mas não fala. A admira pelo mesmo motivo que a repudia: ela arrisca, fala alto e em bom som. Alto demais. Silêncio.

Sim, certamente mais parecida com ele do que imagina, ainda que um dia quando ele quis de fato imaginar, assustou-se e lamentou....por se considerar um fracasso. 



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