...subiu os três únicos e laterais degraus. foi deixando partes dela mesma, o casaco, o chapéu, arrancou das mãos as luvas e as largou...

largou a mochila, tirou as botas e...



...subiu os três únicos e laterais degraus.
foi deixando partes dela mesma, o casaco, o chapéu, arrancou das mãos as luvas e as largou por ali.

rodopiou pelo tablado, sentia as tábuas de madeira ranger na planta dos pés.
tudo era silencio.
com o braço esticado a frente e a palma da mão aberta como quem pede, fez um semi-circulo enquanto olhava para as cadeiras vazias.

seu corpo se dobrava e se esticava, vivia uma convulsão ritmica de abrir e fechar-se,
compartimento de uma alma projetada no espaço ao redor, como se ela toda fosse o hábito encarnado de repirar.

era como um pássaro solto em um teatro fechado e vazio, a debater-se.

esse era um vazio que pouco importava. dançar era o puro extase.

ofegante sentou-se a borda do palco e ficou longo tempo a olhar a luz dos candelabros refletirem nos encostos das cadeiras vermelhas e adamascadas da platéia.

como quem recupera posse do proprio rosto, a máscara de carne das emoções, vestiu o casaco, calçou as botas, pos na cabeça o chapéu.

"me falta alguma coisa" sussurrou pondo no ombro a mochila, os olhos percorrendo o palco ao seu redor e lembrou-se que eram as luvas, atiradas de qualquer maneira a um canto.

colocou-as lentamente, olhando ainda a luz a refletir-se, então riu consigo mesma, ao notar mais uma vez que a sensação permanecia, mas nada ali restava... sabia o que era, e que não seria tão fácil recolher seus pedaços pelo chão...

não sozinha..

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