Tudo escuro. A inconsciência era para ela como o pêlo de algum animal vivo, recem nascido, macia e quente, lembrava o veludo.. mas muitas...

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Tudo escuro.
A inconsciência era para ela como o pêlo de algum animal vivo, recem nascido, macia e quente, lembrava o veludo.. mas muitas coisas para ela lembram o veludo.
e agora ia embora....
Tentou mover-se e algo lhe doeu. Tudo lhe fugia, a deixava por completo, rapidamente.
Percebeu que a dor vinha de um ponto central. tocou o peito e encontrou...o que?
Vazio.
Fora cruel com aquele corte,
fora cruel quando abriu espaço entre as costelas, quando as empurrou com as pontas dos dedos, com unhas tao compridas..
Podia ter sido tudo muito mais delicado, menos doloroso, menos sangrento.

Estava feito.....entao, tentaria nao sentir falta dele batendo dentro do peito.
É obvio... ainda poderia imaginar o que quisesse, escrever o que quisesse, tinha tirado o coração, nada mais do que isto. Pensava agilmente, de forma livre.

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"por ele no lugar devido, pregado a uma porta"? as portas nem existem mais,
entao ele fica no baú.. para quando eu sentir fome.

4 comentários:

  1. Portas não existem, como a ilusão nunca existiu. E não existem portas em mim quando se trata de você [eu as queimei todas]. O que existe é um grande corredor entre salas abertas, como o fluxo ininterrupto entre todas as coisas. Lugares ao qual eu tento me conectar e encho de espelhos, porque no fundo sou egoísta.
    Sim, te acho dolorosamente bela e sei que é ilusão (mesmo que na minha mente condicionada eu fique a me dizer 'ajoelhe-se mortal, eis a encarnação da bela Psique, adore-a até que seja desposada pelo Deus!'). E talvez essa seja a única verdade que eu prezo, porque é minha e de mais ninguém.
    E mesmo que você faça isso a mim, e para tantos outros, te vestir desse véu de malicia e mentira, eu também o faço e tantas outras pessoas. Eu procuro ás vezes submergir disso, pra tomar ar, mas as pessoas são feias e más e egoístas. Ninguém pode me culpar por querer a mentira ás vezes, não?
    Porque a verdade é uma merda, e a vida sem a mentira é ainda pior. Tudo o que vestimos e o que falamos... Não, nada é tão bonito e tão menos verdade do que deixamos parecer. E é isso, eu te amo por tua mentira, e por saber que mente. E porque meus olhos insanos (acham que) conseguem te ver através disso tudo. Eu passo muito tempo admirando teu coração, mesmo que ele esteja agora dentro do baú (e ele me parece apetitoso). Eu te amo porque a tua sala tem a cor dos meus olhos de mentira. E os espelhos que tem lá refletem você... e um pedaço inteiro de mim, falso - que é só um bálsamo pro meu ego, pra dizer em vão que eu não estive errada ou que você também não mentiu sobre isso.
    A imagem de todos é feito disso, ninguém é tão inteiro assim, tão bom assim, tão inteligente assim, tão belo. Mas eu acredito na verdade inventada, que é o grande motivo pelo qual eu ainda estou aqui, viva e amando até o fim.
    Então a verdade é que você cria situações em lugares e veste-se para a ocasião. Fala frases prontas porque já sabe o que elas provocarão. Escolhe a luz, a roupa, o cabelo e é infeliz porque sabe o fim da peça de teatro.
    Foda-se! Eu leio muitos livros mais de uma vez, sabendo o final (e você já fez isso também, muito mais do que eu!). E mesmo assim eu ainda tenho o prazer de lê-lo, sôfrega, esperando a parte que eu sei que acontecerá (e gosto!).
    A minha epifania sobre a tua verdade me veio há muito, muito tempo... E eu sei que você sabe disso também.

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  2. Hm... Li o texto mais uma vez e vi que pareci grosseira.
    Mas acho que é só verdade crua.

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  3. Terminei de ler pensando em uma musica bem especifica e um sorriso atravessado de fora a fora da minha cara amassada (de 8 da manhã);

    Ne Me Quitte Pas - Jacques Brel

    Ne me quitte pas
    Il faut oublier
    Tout peut s'oublier
    Qui s'enfuit déjà
    Oublier le temps
    Des malentendus
    Et le temps perdu
    À savoir comment
    Oublier ces heures
    Qui tuaient parfois
    À coups de pourquoi
    Le coeur du bonheure
    Ne me quitte pas

    Moi je t'offrirai
    Des perles de pluie
    Venues de pays
    Où il ne pleut pas
    Je creuserai la terre
    Jusqu'après ma mort
    Pour couvrir ton corps
    D'or et de lumière
    Je ferai un domaine
    Où l'amour sera roi
    Où l'amour sera loi
    Où tu seras reine
    Ne me quitte pas

    Ne me quitte pas
    Je t'inventerai
    Des mots insensés
    Que tu comprendras
    Je te parlerai
    De ces amants là
    Qui ont vu deux fois
    Leurs coeurs s'embrasser
    Je te raconterai
    L'histoire de ce roi
    Mort de n'avoir pas
    Pu te rencontrer
    Ne me quitte pas

    On a vu souvent
    Rejaillir le feu
    De l'ancien volcan
    Qu'on croyait trop vieux
    Il est paraît-il
    Des terres brûlées
    Donnant plus de blé
    Qu'un meilleur avril
    Et quand vient le soir
    Pour qu'un ciel flamboie
    Le rouge et le noir
    Ne s'épousent-ils pas
    Ne me quite pas

    Ne me quite pas
    Je ne veux plus pleurer
    Je ne veux plus parler
    Je me cacherai là
    À te regarder
    Danser et sourire
    Et à t'écouter
    Chanter et puis rire
    Laisse-moi devenir
    L'ombre de ton ombre
    L'ombre de ta main
    L'ombre de ton chien
    Ne me quitte pas

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  4. Sabe, Samira, acho que tu nasceu pra isso, pra escrever. Esse texto é um dos fragmentos de prosa poética mais intensos que já li, e aí estou falando também de Rimbaud e enfim... não é pouca coisa.

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